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Nossa verdadeira natureza

Martha Medeiros

Cuidar de crianças e de idosos é um ato de amor e generosidade. Isso pode realizar uma pessoa, mas só isso? E quem é mesmo que cuida da gente?

Ela passou boa parte da vida cuidando dos três filhos. Trabalhar, trabalhava, mas não se considerava uma mulher livre, não podia embarcar a hora que bem entendesse num avião, não podia se matricular em cursos que lhe tomassem a noite – tinha as crianças. Que ela amava, mas que ainda não haviam crescido o suficiente para alforriá-la. Ela secretamente aguardava o dia em que eles seriam donos dos próprios narizes. Um na faculdade, outro morando sozinho, outro viajando pelo mundo, havia pouca diferença de idade entre eles, sairiam todos juntos, e quando chegasse esse dia, ela então iria cuidar de si mesma. Ouvi esses planos secretos por anos, até que os meninos cresceram, caíram na vida, e quando ele já se preparava para curtir uma etapa mais independente, descobriu que o outro lado da família decaíra – agora eram seus pais que precisavam dela. E passou a outra metade da vida adulta cuidando dos dois, que davam quase tanto trabalho quanto os meninos um dia deram. E dela mesma não cuidou mais.

É uma história triste, ainda mais porque é real e vivenciada por quase todos. Quase todas, melhor dizendo. Ainda é da mulher o encargo de “cuidar”, seja de quem for. Isso me faz pensar no tempo que nos sobra para viver nossa verdadeira natureza. Cuidar de crianças e idosos é um ato de amor e generosidade, e isso pode realizar uma pessoa, mas apenas isso? O tempo inteiro fazendo isso? Não somos uma legião de abnegadas. Tudo bem cuidar dos outros, é parte da vida, mas e a outra parte, aquela que nos cabe individualmente? Quando é que a gente cuida de nós?

Já que não dá pra jogar tudo pro alto e tratar da própria vida, o jeito é levar “nosso verdadeira natureza” pra pegar um solzinho de vez em quando, pra respirar ar puro. Pode ser durante um final de semana solitário. Uma tarde livre. Uma insônia. Sempre há um momento em que ninguém está precisando da gente, ninguém nos chama, ninguém nos quer: oba. Hora de soltar “nossa verdadeira natureza”, como se fosse um cão que vive acorrentado para não agredir os outros – ninguém à vista, vá correr um pouco pela grama, bicho.

Depois é só recolher “nossa verdadeira natureza” e continuar a cumprir a natureza coletiva do ser humano: ajudar o próximo, zelar pela harmonia, cuidar do bem-estar de quem precisa, sejam eles mais novos ou mais velhos que a gente. E tratar de ficar atenta: não temos todo o tempo do mundo para ser livres, mas sempre aparece uma brecha, entre um ato de amor e outro.


Domingo, 25 de janeiro de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.